Carreira & Maturidade

O gestor de negócios como arquiteto de instrução

Por Edson Gatto · · 4 min de leitura

A pergunta que quase todo mundo faz errado

"Quais das minhas tarefas a IA vai fazer no meu lugar?"

Por trás dessa pergunta tem uma imagem: o seu trabalho como uma lista fixa, e a IA riscando item por item até sobrar pouco. Não está acontecendo assim, e existe levantamento grande o bastante para mostrar isso.

O que o estudo mediu

A OpenAI publicou em agosto um levantamento cobrindo cerca de 900 profissões e 150 milhões de empregos nos Estados Unidos. Dos resultados, o que interessa: 46% das profissões ficam fora de risco imediato, 36% têm as tarefas transformadas, e 18% enfrentam risco maior de substituição.

A manchete fácil pegou os 18%. O grupo que interessa é o do meio.

  • Fora de risco imediato: 46%
  • Com tarefas transformadas: 36%
  • Com risco maior de substituição: 18%

Tarefa transformada não é tarefa eliminada. É a mesma entrega, feita de outro jeito. E é onde está quase todo mundo que toca um negócio pequeno ou médio hoje.

O próprio estudo faz questão de dizer uma coisa que a manchete cortou: estar exposto à IA não significa ser substituído por ela. Nas profissões de maior exposição, o que passa a valer mais é julgamento, leitura de contexto e capacidade de explicar direito o que precisa ser feito.

O que muda dentro da tarefa

Antes você fazia. Agora você precisa saber descrever, com precisão suficiente, o que deveria ser feito para outra pessoa ou outra coisa executar.

Isso é outro ofício. "Escreva um e-mail de cobrança" é vago o bastante para sair qualquer coisa. Dizer para quem é, o que já foi tentado antes, qual tom não funciona com aquele cliente específico e o que faz uma versão ficar boa é um trabalho diferente. Mais parecido com treinar alguém novo do que com apertar botão.

Quem passou vinte anos treinando gente, delegando com critério e cobrando resultado sai na frente aqui. O problema é que quase ninguém transfere essa habilidade para o jeito de falar com a máquina. Trata a IA como caixa de sugestão, não como alguém que precisa de instrução clara para entregar direito.

Os três degraus, aplicados a quem lidera

Uma leitura de mercado que eu adoto, e não inventei, separa quem usa IA em três degraus. Na liderança, eles aparecem assim.

O gestor no primeiro degrau pede tarefa pontual, do jeito que pediria para um estagiário que nunca ouviu falar da empresa. Sai genérico, volta para a mesa dele, refaz.

No segundo, já existe um caminho montado, mas cada decisão continua sendo tomada na hora, sem regra escrita em lugar nenhum.

No terceiro, o processo foi descrito uma vez, com limite claro do que a máquina pode e não pode decidir. O gestor revisa exceção, não repete instrução.

A distância entre esses três nunca foi tecnológica. É a mesma distância que sempre existiu entre tocar no impulso e tocar com processo. Só que agora o processo também precisa ser explicado para uma máquina, além de para a equipe.

O que sobra para você

Você não vai ganhar de um sistema que não cansa em velocidade de execução. E não precisa. O que decide é o critério: saber o que pedir, como descrever, e reconhecer quando o resultado ainda não está bom o suficiente para sair da sua mesa.

Esse julgamento vinte anos de negócio já te deram. O que muda é o destinatário da instrução.

Perguntas frequentes

O estudo é dos Estados Unidos. Vale para o Brasil?
A composição de profissões muda, mas o mecanismo não. Tarefa descritível é a primeira a se transformar, em qualquer país.
Como eu sei em qual dos três grupos estou?
Olhe uma semana sua e separe o que é decisão de contexto do que é execução repetida. A proporção entre os dois já responde.
Se a tarefa se transforma, preciso mudar de profissão?
Não. Precisa mudar o que você faz dentro dela, e o que sobra costuma ser justamente a parte que exige mais julgamento.
Descrever bem uma tarefa não toma mais tempo do que fazer?
Na primeira vez, sim. A diferença é que a descrição serve para todas as vezes seguintes, e a execução serve para uma só.