Arquitetura de Agentes

Como estruturar o registro de um consultório sem encostar no sigilo

Por Edson Gatto · · 4 min de leitura

Este texto descreve um padrão comum em consultórios de psicoterapia, não um caso específico. É também o setor em que eu mais recomendo cautela, e o motivo aparece abaixo.

O padrão

A agenda está cheia, o que é bom. O efeito colateral é que o intervalo entre uma sessão e outra, que deveria ser respiro, vira corrida para registrar o paciente anterior antes do próximo entrar.

O resultado é anotação feita com pressa, terapeuta sem o intervalo que o próprio trabalho exige, e risco de detalhe relevante se perder por falta de tempo de escrever direito.

O que dá para construir

A partir de anotações rápidas que o próprio terapeuta escreve logo depois da sessão, em linguagem livre, o sistema organiza aquilo no formato de registro que o consultório já usa.

É transcrição estruturada do que o profissional decidiu registrar. Nada além disso.

O que o sistema nunca faz

Aqui a lista importa mais que a anterior.

  • Nunca grava sessão. Não tem acesso a áudio nem a conteúdo clínico além do que o terapeuta escolheu escrever.
  • Nunca sugere interpretação, hipótese diagnóstica ou conduta. Isso é julgamento profissional, e julgamento profissional não vira sistema.
  • Nunca guarda informação fora de uma base com acesso restrito, alinhada ao sigilo que a categoria já exige por conta própria.

No método a gente chama esses limites de Red Lines: o que o sistema nunca decide sozinho, escrito antes de ligar qualquer coisa. Em consultório, elas não são precaução. São a condição para começar.

O que muda

O registro deixa de competir com o intervalo.

Não tenho medição própria para colocar um número aqui, e prefiro não inventar um. O ganho que dá para descrever com honestidade é outro: o intervalo entre sessões volta a ser intervalo, em vez de hora extra disfarçada de agenda cheia.

Onde isso não serve

Se a expectativa é que o sistema ouça a sessão e produza o registro sozinho, a resposta é não. Não é limitação de tecnologia, é limite profissional e ético, e ele não se negocia por conveniência.

Perguntas frequentes

Isso é permitido pelo código de ética da profissão?
O que descrevo aqui é organizar um registro que o próprio profissional escreveu. Ainda assim, a checagem com o conselho da categoria vem antes de qualquer implantação, não depois.
E se eu quiser que ele ajude a pensar o caso?
Aí sai do escopo. Pensar o caso é a parte que não se delega, e um sistema que opina sobre conduta clínica é risco, não ganho.
Onde ficam guardadas as anotações?
Em base com acesso restrito, definida antes de qualquer coisa ser carregada. Se essa definição não existe, o projeto não começa.
Vale a pena para quem atende poucos pacientes?
Menos. O ganho aparece com volume e repetição. Com agenda pequena, o esforço de estruturar não se paga tão cedo.